Súplica (III)

A prece que eu murmuro, a soluçar
Ao Deus todo bondade e todo amor,
É rezada de rastos no altar
Onde a tristeza reza com a dor!

A minha boca reza-a comovida,
Chora-a meus olhos, beija-a o meu peito
Sonha-a minh’ alma sempre enternecida
Ao ver-te rir, ó meu Amor Perfeito..

Que o Deus do céu atenda a minha prece,
Embora eu saiba nesta desventura
Que Deus só ouve aquele que o merece!

Mas vou pedindo ao Deus de piedade,
Que te conceda anos de ventura,
Como dias a mim de infelicidade!…

(Florbela Espanca)

Solidão

E agora por não ter aonde ir, meu coração tem que caber dentro de mim. Poderia até ser fácil, se a solidão me fizesse mal, e estranhos são estranhos sentimentos dentro de mim, e conhecidos somente tristeza e solidão.
Agora mas como pode, alguém amar, amar… amor… Por não ser eu capaz, então que feliz eu seja, por querer de menos, que tenha o que mereço. E nada no horizonte parece me dizer: felicidade e paixão distantes não pode ser. Nada no horizonte, nem menor esperança se vê. Sentido nunca sentindo, amado nunca amando e por motivos tenha, emoções que venham, razões são mais fortes e quebram esperança.
Por maior beleza que seja esta “amor”, tristeza de desamor não compensaria, e amar eu gostaria, até gostar eu amaria. Buracos como estes que caio agora, são pequenos quando vistos por olhos de quem amou. Sem rimas e versos, sem prosa nem poesia palavras alheias saem de minhas mãos na inútil tentativa de escrever coisas que não entendo, escrever sentimentos.
E que o sol um dia, ou uma noite, não me deixe esquecer que pelo menos tentei, ou cai numa tentação. E que nuvem me fará tentar novamente nesse coração descrente, se coração ainda for, por não saber, ou querer ser , por não ter e deixe , deixa… que viver está por ai e de um jeito ou de outro estou. Por não querer não quer dizer nada, pois meu querer é querer… querer bem, amar. Mas que bela a beleza da tristeza, a solidão ME FAZ MAL! Mesmo por não querer…

(Eduardo Bello)

Canção do amor que chegou

Eu não sei, não sei dizer
Mas de repente essa alegria em mim
Alegria de viver
Que alegria de viver
E de ver tanta luz, tanto azul!
Quem jamais poderia supor
Que de um mundo que era tão triste e sem cor
Brotaria essa flor inocente
Chegaria esse amor de repente
E o que era somente um vazio sem fim
Se encheria de cores assim

Coração, põe-te a cantar
Canta o poema da primavera em flor
É o amor, o amor chegou
Chegou enfim

(Vinicius de Moraes)

Bons Amigos

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

(Machado de Assis)

Quem vê, Senhora, claro e manifesto

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder de vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.

(Luís Vaz de Camões)

Eu amo tudo o que foi

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

(Fernando Pessoa)

Prosa da vida

Nem sempre de certezas são as curvas do caminho,
Às vezes as pedras que ferem os pés, machucam também o coração
Sei que há de sempre existir tristeza quando sozinho,
Mas aos que seguem em frente todas as lágrimas valerão

Levo assim a minha vida, como numa barca,
ora a contemplar o pôr-do-sol e a calmaria que o segue
ora a lutar contra o mar revolto que me quer entregue…
ora só, sorrindo, ou só, chorando
ora com um certo alguém me apoiando ou crucificando.

Aos que olham distante querendo da minha vida saber,
Espalhem pois a notícia, dêem o recado,
“Eu vou muito bem, obrigado!”

(Eduardo Bello)

O Amor

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade

Amor agonizante

Sinto que já não me desejas
Vejo ausência se me beijas
Evitas o meu abraço
Pareço estranha a ti
Não me queres mais aqui
Percebo teu embaraço.

Por mais que ainda te ame
Que meu querer te conclame
De nada adiantará
Porque não se ama sozinho
Logo não terá caminho
Que nos conciliará.

Haverei de compreender
O que a vida quer dizer
Sentimentos enfraquecem
Quando não são bem cuidados
Como jardins não regados
Secam e logo perecem.

Algumas vezes há jeito
Reavivar, reacender no peito
O amor agonizante
Noutras não há saída
Melhor é seguir na vida
Tomando a lição de antes.

Amor, cuidar mutuamente
Respeitar individualmente
Partilharem os planos
Serem cúmplices, amigos
Serem um do outro abrigo
Por anos e anos e anos.

(Roseane Ferreira)

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida …
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa …”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
“Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! …”
(Florbela Espanca)